Blog da Aldeia

Consciência Negra na Escola

por Escola Aldeia - Publicado em 08 de novembro de 2019

“Uma pessoa não nasce branca ou negra, mas torna-se a partir do momento em que seu corpo e sua mente são conectados a toda uma rede de sentidos compartilhados coletivamente, cuja existência antecede à formação de sua consciência e de seus afetos(…) Somente a reflexão crítica sobre a sociedade e sobre a própria condição pode fazer um indivíduo, mesmo sendo negro, enxergar a si próprio e ao mundo que o circunda para além do imaginário racista

Silvio Almeida, 2018

 

Chegou o mês de novembro! Mês que nos convida à uma reflexão: qual é a essência do Dia da Consciência Negra?

Será mais uma data comemorativa no calendário escolar que merece ser festejada? Qual a importância das escolas e instituições reconhecerem a pluralidade da cultura brasileira e inserirem projetos que abarquem a cultura negra no cotidiano escolar, de forma transdisciplinar?

Em verdade, consideramos que não há o que comemorar no dia 20 de novembro e, sim, o que homenagear. Homenagear as contribuições importantes que negros e negras deram para a literatura, história e ciência. Ressaltar o valor da luta das mulheres e homens negros no processo de formação do Brasil e abrir perspectivas para que as crianças possam entender alguns traumatismos da atual sociedade brasileira.

É preciso, antes de tudo, ressaltar que ações estanques que tratam do assunto de forma alegórica são consideradas limitadoras; como, por exemplo, fantasiar as crianças de aborígenes nas escolas, estudar sobre os animais da savana africana e simular safáris; falar do continente africano como se fosse um território homogêneo e não o terceiro maior em extensão territorial e o segundo em população total, composto por 54 países ricos em diversidade cultural; usar estamparias tribais e turbantes para contemplar os projetos pedagógicos… entre tantos outros equívocos e mal entendidos que, não raro, contemplam os projetos escolares quando o tema é atender a demanda da lei  10.639/03 – abordar dentro da lógica de um pensamento complexo o lugar social do continente africano e sua história, bem como da cultura afro-brasileira, como disciplina escolar.

O desafio é, à despeito de todos os equívocos citados, abrir caminho para o reconhecimento e respeito das diferenças existentes em nossa sociedade e oferecer às crianças um espaço saudável de produção de sentido… Algo realmente significativo.

Que tal se, durante todo o ano letivo, começássemos a educar o olhar de alunos e alunas, ensinando-os a prestarem atenção ao número de pessoas negras nos ambientes que frequentam e qual papel desempenham. Na escola, nos restaurantes, no parque, na praça do bairro, no condomínio, no clube. Que tal se, ainda, observássemos quem são os porteiros, babás e auxiliares de limpeza desses espaços?

Será que, para a maioria das pessoas, a segregação que acontece estruturalmente em nossa sociedade, é perceptível? Será que estamos fazendo o nosso papel enquanto educadores e despertando o olhar das crianças e de toda a comunidade para os padrões de clivagem racial inseridos no imaginário e nas práticas sociais cotidianas?

No meio em que vivemos é bem raro escutar alguém confessar-se racista. Até porque o Brasil possui legislação para punir esse tipo de violência, tanto por meio da Lei 7.716, de 1989 (que define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor), como no Código Penal (art. 140,§ 3º – crime de injúria racial), além da nossa Constituição Federal (art. 5º XLII), que considera a prática do racismo crime inafiançável e imprescritível.

Pois bem, já que o racismo é tipificado como crime pelo ordenamento jurídico; socialmente, é visto com reprovação e ‘politicamente incorreto’; historicamente já reconhecemos os processos brutais de desumanização que causaram diásporas e genocídios de populações inteiras; e, a biologia já concordou que, do ponto de vista científico, não existe relação hierárquica ou categórica dentro da raça humana. Se é assim, por que então as instituições mais respeitadas do país – família, escola, igreja, poder público –  reforçam uma percepção humana notadamente cruel e maléfica, uma visão de mundo racista onde o imaginário da população é povoado com médicos e advogados brancos e, empregadas domésticas, invariavelmente, mulheres negras?

Se somos dotados desse saber consciente e individualizado, por que somos também incapazes de reelaborar a realidade coletiva, padecendo dessa impossibilidade para modificar nossa própria percepção da dinâmica social, motivo pelo qual continuamos submersos nesse oceano de violência e discriminação veladas?

Se já nos conscientizamos, por que a sociedade é, ainda, estruturalmente racista? Esse racismo velado, que só aparece quando o governador do Rio de Janeiro autoriza mortes de favelados que, como diz Caetano Veloso, são quase todos pretos de tão pobres. Ou, quando olhamos para o sistema carcerário e nos deparamos com o dado de que o Brasil tem a terceira maior população prisional do mundo, uma cultura punitiva e judicializada que não atinge todas as classes na proporção de seus crimes mas, prioritariamente, determinados grupos sociais. E mais, quando destacamos a situação a que mulheres negras estão submetidas, possuindo os piores indicadores em educação, mercado de trabalho, acesso a bens e serviços, dentre outros.

Nenhuma narrativa pretende neutralidade num campo de violência velada e naturalização de barbáries como é o do racismo estrutural e sua consequente desigualdade sócio-econômica. Se a maneira como concebemos as relações sociais constitui a lente que nos permite enxergar o negro brasileiro, então é bom deixar claro o papel do professor: atuar nas bases, estabelecendo uma práxis que visa combater a constelação de pensamento social racista atuante no inconsciente do brasileiro, trazendo à luz, de forma crítica e madura, temas significativos para a formação subjetiva da criança, com questionamentos, ludicidade e olhar apurado do professor, objetivando, por fim, uma sociedade mais justa e crítica dos seus próprios processos.

E como fazer isso? O princípio do estabelecimento dessa práxis pede que o espaço da escola crie oportunidades para que todos e todas possam desenvolver seu potencial de forma livre, autônoma e plena (crianças, pais, mães, professoras, professores e toda a equipe); que as normas internas da instituição partam de princípios dialógicos, seja no ambiente interno e também com a comunidade escolar – mediata e imediata; que aja com transparência em todas as áreas e esferas da administração, sempre atentos à primazia dos Direitos Humanos, respeito à diversidade e combate às desigualdades.

É primeiramente dentro do corpo docente da escola que inicia-se a discussão e reflexão sobre temas como diversidade e discriminação – inclusive no espaço de trabalho; mobilidade social e adoção de políticas de promoção da igualdade. É em meio aos professores que precipuamente se propõe reflexão consciente e fundamentada sobre questões sociais no sentido de disseminar práticas antidiscriminatórias, sexistas e meritocráticas a fim de viabilizar o impacto desses programas em toda a comunidade local.

Somente a partir disso, torna-se possível para os professores o desenvolvimento de projetos concretos, orientados para os alunos. A sala de aula é apenas o reflexo de uma prática pré-existente na comunidade escolar.

É importante que o professor leve ao conhecimento de seu grupo de estudantes, a atuação das pessoas negras em diferentes funções sociais, incorporando artistas, escritores, cientistas e até eles mesmos nessa gama de personalidades admiradas que povoam nosso imaginário.

É salutar dar voz aos professores. Ceder o espaço para que falem de si pois, além de ‘ensinadores’ – acadêmicos, pesquisadores, mestres e doutores – são homens e mulheres admiráveis em sua trajetória. Importa para os processos de formação subjetiva das crianças que escutem o que a coordenadora Joseni tem à dizer sobre racismo e se ela pensa que pessoas negras são menos aptas para se tornarem médicas ou juízas ou fazer carreira na Academia. Ou ainda, que tenham a oportunidade de um diálogo com a professora Danúbia acerca da condição racial do negro brasileiro e sua situação sócio-econômica. Cabe às crianças que problematizem, juntamente com a professora Janice, sobre o acesso à Educação das pessoas negras e fatores históricos que alocam mulheres negras em trabalhos menos qualificados e, consequentemente, mal remunerados. As crianças almejam escutar da professora Thais se ela pensa que pessoas negras estão sob o domínio de uma supremacia branca politicamente construída e o que isso significa. Que a professora Clarici possa enriquecer as aulas e projetos com os saberes de sua comunidade de origem e que esse conhecimento seja dignificado dentro da escola como mais uma fonte de conhecimento e forma de ampliação do arcabouço simbólico das crianças. E como as professoras citadas, que várias outras e outros ‘ensinadores’ – Tati, Kamila, Sr Lázaro, Lucas e mais –  se sintam autorizados, pelo espaço onde atuam e pessoas que aqui coexistem, a falar sobre sua odisseia e, desta forma, produzir – em amor – a maior riqueza de uma comunidade: intersubjetividade.

Enfim, o racismo constitui um complexo imaginário social reforçado pelo sistema educacional e até mesmo pelas indústrias cultural e de comunicação. Assim sendo, a escola não pode prescindir de abrir espaço para que ensinadores e professores negros coloquem-se diante dos alunos como homens e mulheres admiráveis que são e que contribuem com a constituição subjetiva das crianças através do compartilhamento de suas pesquisas, trajetórias e subjetividades.

Carolina Parrode

06 de novembro de 2019