Blog da Aldeia

Afinal, podem as crianças cantarem “fogo nos fascistas”?

por Escola Aldeia - Publicado em 17 de junho de 2022

Percebemos que a canção de Chico César tem causado polêmica. Principalmente o trecho “fogo nos fascistas, fogo Jah”. Sobre isso, é preciso refletirmos sobre alguns aspectos.
A Arte é uma saída sublimatória. O que faz a pessoa não botar fogo no fascista é que ele pode cantar, ou dançar … Ou escrever… ou falar sobre isso. Eu quero cantar “fogo nos fascistas”, porém, não quero tocar fogo em nenhum ser humano.
Muitas vezes a fala do homem ou da mulher é muito agressiva mesmo. Observem os conflitos aqui na escola, entre as crianças. Ou quando estamos bravos no trânsito, ou impacientes falando de alguém que nos irritou para um amigo.
O fato de falarmos de uma dada situação agressivamente, não significa que iremos nos dirigir violentamente contra o corpo do outro; passar ao ato. O significado não está colado no significante. Por isso temos a Arte, a fala. E até o trabalho, como meio de sublimação.
Ainda bem por isso (eu ouvi um ‘amém’?!)
A palavra bem colocada é o bem em ação: benção. Por outro lado, existem palavras que nunca são ditas… ou são mal-ditas. A palavra bem colocada, colocada na hora certa é raríssima! Por isso é preciosa a nossa interlocução, entre nós aqui, para esclarecermos e colocarmos em palavras. E ‘entre nós’, também me refiro entre escola e pais. Porque assim, supõe-se que estamos transferidos com o trabalho, para além das nossas transferências pessoais. Se gostam ou não da diretora ou da coordenadora, ou da professora. É importante compreendermos e refletirmos do que se trata o trabalho.
Um bom exemplo é olharmos para a arte: Goya pinta Saturno devorando um de seus filhos. É o que ele conseguiu fazer diante da tragédia de uma depressão profunda causada por sua experiência na guerra e pela surdez.
Picasso pintou Guernica diante da tragédia da Guerra espanhola. Pintou ainda um galo degolado numa fase em que estava chocado por ter presenciado a dissecação bruta de dois corpos humanos.
Algumas pessoas praticam artes marciais para despejarem ali seus ímpetos de agressividade.
Ou seja: Há possibilidade sublimatória para nossas pulsões.
O Chico César canta; compõe as canções e é autor de poesias que refletem suas convicções. O poeta faz da palavra, seu fogo. Não é um mando, uma ideologia. Pode sim ser uma denúncia, que parte de um processo reflexivo e dialógico.
A arte não instiga a violência contra o ser humano porque instiga outra coisa: a reflexão. A produção artística depende da reflexão e do juízo crítico para existir. Com a educação não é diferente, pois melhor o que proibir, é abrir espaço para dialogar sobre. Para reflexão.
Por exemplo, o fato da criança cantar ‘atirei o pau no gato’ vai incitá-la a praticar crueldade contra os animais? E sobre escutar a historinha dos 3 Porquinhos, onde o lobo passa todo o tempo ameaçando e tentando cometer porquicídio?! O que dizer então de um conto infantil sádico onde narra pessoas sendo devoradas – incluindo uma criança inocente e uma vovozinha.
Então, a busca do autor, do artista e do educador não é instigar violência (este é o trabalho do fascista, que naturaliza os fenômenos sem edificar). A educação, ao contrário, propõe – ou deveria propor – a reconquista do conteúdo humano de nossas vidas. É uma postura diversa do autoritarismo. Envolve diálogo, reflexão, palavra.

Carolina Parrode
14 de junho de 2022