Blog da Aldeia

Aldeia Online: que conexão é essa?

por Suporte Traço - Publicado em 15 de junho de 2020

Um tigre é o mesmo tigre há dez mil anos. Sabe por que? Porque ele não retém histórias, não acumula narrativas. A história, dentro da linguagem, é uma das mais poderosas formas de transformação, de impacto, no cérebro e no afeto do ser humano.  Os efeitos da memória na vida de uma criança são estruturantes. Você já parou para pensar em como o seu filho vai contar a história dos dias em que todos tinham que ficar em casa por conta de um vírus? Como de fato ele está processando este tempo espaço?

Em dias de pandemia, nas atuais circunstâncias, quais são as forças motrizes do processo de desenvolvimento e de constituição do seu filho? Que especificidades do trabalho dos professores e da sua atividade pedagógica podem contribuir para que ele se lembre desse momento como algo que o fez crescer e superar adversidades? A escola que escolheu para, junto com você, educar o seu filho, pode lhe ajudar nesta hora?

Convidamos você a refletir conosco sobre como o trabalho pedagógico intervém na formação das capacidades especificamente humanas em cada criança de que cuidamos e a quem educamos. Afinal, o fazer docente interfere – tenhamos consciência disso ou não – no desenvolvimento de uma criança, torna cada menino ou menina um indivíduo único e irrepetível. São forças intelectuais e práticas essenciais à sua vida presente e futura.

Sim, nossas atuais circunstancias são limitadoras em alguns aspectos, mas nos fortalece em outros.  E o que precisamos focar, nesse momento, é no desenvolvimento cultural, na linguagem simbólica estruturante. O desenvolvimento cultural tem um caráter muito peculiar que não pode comparar-se com nenhum outro tipo de desenvolvimento, já que se produz simultânea e conjuntamente com o processo de maturação orgânica e que seu portador é o mutante organismo infantil em vias de crescimento e maturação.  A base real da personalidade do ser humano é o conjunto de suas relações com o mundo, que são sociais por natureza. Mas como viabilizar momentos de interações sociais em dias de quarentena? O parquinho, a casa dos primos, o clube no final de semana… tudo isso lhes foi tirado. Aonde seu filho pode se encontrar com o “outro”, para além do pai e da mãe? Estar em casa, em um único ambiente seguro, com as mesmas pessoas é um conforto, mas é também extremamente limitador.

A escola é o local sistematicamente organizado para educar. Sua função social é a de promover, por meio do processo pedagógico, a aprendizagem dos conteúdos da cultura elaborada pela humanidade ao longo da História e, a partir dela, promover o desenvolvimento das capacidades da criança e de sua forma singular de ser e de atuar socialmente. Em dias de corona, a sala virtual é a mais segura forma de encontro com a socialização do saber e das emoções humanas.  Não se trata, assim, apenas de colocar a criança ao lado dos objetos para que ela, sozinha, ou apenas com o pai ou a mãe, descubra, construa o conhecimento – sejam esses objetos materiais, como os livros, os blocos para construção, os papéis para as dobraduras, a tesoura e a cola, os quebra-cabeças, as tintas e os lápis, ou objetos não materiais, como os números, a leitura, a escrita, a música e as diversificadas formas de expressão humana. Cada objeto porta, além das propriedades físicas, conhecimentos acumulados sobre o seu uso, formulados historicamente pela humanidade. Os livros são acompanhados por procedimentos de manipulação e de leitura culturalmente elaborados; os jogos possuem regras convencionadas; os movimentos possuem significados consolidados ao longo da história, assim como a música, a pintura, a escultura, o desenho, as ciências. Durante esses dias, estamos fazendo uma curadoria para garantir as melhores experiências com todas essas possibilidades.

Não é qualquer fazer que chega à sua casa, são repertórios ricos do que acreditamos como necessário para o seu filho nesse momento. Ao mesmo tempo, mediar esse material, significa, promover o encontro da criança com o uso social para o qual um objeto, ou um mundo, existe. Isso acontece dentro do encontro com o “outro”. Em sala, mesmo que virtualmente, a criança não fica passiva às influências dos professores e dos seus amigos. A aprendizagem é um processo ativo, e implica a sua participação como sujeito, promovendo o seu desenvolvimento. Ao ouvir uma  história que a sua amada professora conta, ao cantar uma canção junto ao batuque do professor Danilo, ao se dar conta de como os povos indígenas se juntam para brincar, com a professora Maurem, ao pular, rir e jogar no longe perto dos seus colegas,  seu filho passa por uma vivência singular que implica em aprendizagem, em superação de dias angustiantes, e principalmente em linguagens que dizem o afeto e o cuidado.

O tempo de duração desses dias, não sabemos. Podem ser muitos e podem ir e voltar. A ideia que vivemos a respeito de como é uma escola é oscilante agora. Um ambiente de aprendizagem de linguagens e de culturas deve estar sempre em transformação para transformar, para evoluir em busca da nossa humanidade.

Durante esse tempo, para você, enquanto pai ou mãe, resta olhar para a alegria de viver esses momentos. A poética presente junto às crianças é revigorante, inventiva, prazerosa e feliz. Pode lhe salvar de dores e preocupações. Pare, observe e sinta… Nos dê a mão. Se você acredita e confia, seu filho se entregará a essa outra e nova possibilidade de ser, viver e aprender. Ao final, você e ele terão memórias para contar para os filhos e os filhos dos filhos…